O relativismo é uma doutrina que afirma a relatividade
do conhecimento humano. Ou seja, há um condicionamento do sujeito que conhece
sobre o objeto conhecido e também dos objetos entre si. Assim, a posição do
sujeito, sua situação e momento condicionam e determinam o modo como ele vê e
concebe a realidade. A pessoa, portanto, como um ser que sempre se encontra em
uma circunstância determinada não consegue transcender esta peculiaridade e
conceber algo universal. A única coisa que ela pode expressar é sua impressão
sobre o que está observando, sua opinião, enfim, aquilo que considera
verdadeiro. Não há verdade absoluta ou universal.
No dia a dia vemos constantemente os meios de
comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas) apresentar versões altamente
questionáveis e tendenciosas sobre os mais diversos assuntos: aborto,
sexualidade, pobreza, inquisição, origem da vida, família, drogas,
prostituição, educação, religião etc. Além disso, na maioria das vezes,
percebemos que não há um amor pela verdade, mas sim um intuito de defender uma
ideologia ou cosmovisão totalmente questionável com o objetivo de influenciar o
modo de pensar da maioria das pessoas, manipulando dados e informações.
Na sua obra intitulada “A Alma da Ciência e Verdade
Absoluta”, a professora e filósofa Nancy Pearcy, analisou como este paradigma
relativista predominante em nossa cultura foi evoluindo. Primeiro ela analisa a
relação entre a fé e a cultura, explicitando como foi se formando uma postura
relativista agnóstica e antirreligiosa no meio acadêmico. Nos dias atuais,
estabeleceu-se uma fragmentação muito grande na sociedade, criando, assim, uma
dificuldade enorme para se viver qualquer tipo de integridade.
Nancy intitula como dicotomia social por termos de um
lado a família, a Igreja, os relacionamentos pessoais compondo a esfera privada
e de outro lado, temos a esfera pública constituída da política, da academia
etc. Essa dicotomia estaria apoiada numa outra divisão entre fatos e fatores.
Os primeiros como algo objetivo que se aplicam a todas as pessoas e os que se
seguem como algo totalmente subjetivo. Assim, na medida em que a religião
pertence à esfera privada, ele é algo meramente subjetivo e a ciência, na
medida em que pertence à esfera pública, é algo objetivo. Portanto, temos já
estabelecido o início do conflito entre ciência e religião, verdade objetiva e
verdade subjetiva, levando, por conseguinte a um duplo âmbito da verdade e até
das ciências, pois de um lado teríamos as ciências humanas as quais estariam no
âmbito do subjetivo e do relativo, e do outro lado as outras ciências que estariam
no âmbito do materialismo e do naturalismo.
Segundo Nancy Pearcy, a guerra entre fé e ciência é um
mito produzido pêra teoria evolucionista. Os pressupostos e suas implicações do
darwinismo, seja no âmbito epistemológico, antropológico como moral, precisam
ser abandonados, seja devido às suas limitações, seja para termos outra
compreensão da relação entre fé e razão, religião e ciência.
A História da Humanidade vivenciou no seu seio
diversos fenômenos absolutistas e fundamentalistas. Ditaduras, estados
totalitários e posturas autoritárias em vários momentos não respeitam a
liberdade de cada ser humano e a sua dignidade. O respeito ao diferente nem
sempre foi vivido de maneira concreta. Minorias foram perseguidas e
massacradas. Devido a isso, gerou-se certo consenso de que uma sociedade
democrática necessariamente é relativa. Qualquer questionamento e discordância
sobre o modo de viver e pensar do outro já é interpretado como intolerância e
preconceito.
O que é o
relativismo moral e religioso? É uma linha de pensamento que nega haver uma
“verdade absoluta e permanente” como a Revelação de Deus nas Escrituras e na
Tradição da Igreja. Então, deixa por conta de cada um definir a “sua verdade” e
aquilo que lhe parece ser o seu bem, como se a verdade fosse algo a se escolher
e não a se descobrir. Nessa ótica, tudo é relativo ao local, à época ou a
outras circunstâncias. É o engano do historicismo. Para seus adeptos, como
Marcuse, “a pessoa se torna a medida de todas as coisas” ou então “o
super-homem” de Nietzsche, que se afirma eliminando Deus.
Ora, se negarmos que existe a verdade objetiva e
perene, o Cristianismo ficará destruído desde a sua raiz. O Evangelho é o
dicionário da verdade. Segundo o relativismo, no campo moral não existe “o bem
a fazer e o mal a evitar”, pois o bem e o mal são relativos. Isso destrói
completamente a moral católica, a qual moldou o Ocidente e a nossa civilização.
Contudo, esse relativismo hoje está penetrando cada vez mais nas
universidades, na imprensa e até na Igreja. Ele ignora a lei natural, que é
a Lei de Deus colocada na consciência de todo ser humano desde que este dispõe
do uso da razão.
Por causa do relativismo moral, os governantes
propõem leis contra a Lei Natural que Deus colocou no coração de todos os
homens. “Dessa forma, a palavra do legislador humano vai superando a do
Legislador Divino, a qual é a mesma para todos os homens.”.
O relativismo atual coloca a ciência como uma deusa
que vai resolver todos os problemas do homem, a qual está acima da moral e da
religião. Mas se esquece de dizer que o homem nunca foi tão infeliz como hoje;
nunca houve tantos suicídios, nunca se usou tanto antidepressivo e tantos
remédios para os nervos; nunca se viu tanta decadência moral (aborto,
prostituição, pornografia, prática homossexual…), destruição da família e da
sociedade.
O relativismo é embalado também pelo ceticismo e
pelo utilitarismo, os quais só aceitam o que pode ajudar a viver num bem-estar
hedonista, aqui e agora. Há uma verdadeira aversão ao sacrifício e à renúncia.
No centro da crise moral, enfatizada por João Paulo II, ele revela qual é a
sua causa: “O homem quer ocupar o lugar de Deus”. A Revelação ensina que não
pertence ao homem o poder de decidir o bem e o mal, mas somente a Deus ”(cf. Gen 2,16-17). Não é lícito que cada cristão
queira fazer a fé e a moral segundo “o seu próprio juízo” do bem e do mal.
É por causa desse relativismo moral que encontramos
vez ou outros religiosos e sacerdotes que aceitam o divórcio, o aborto, a
pílula do dia seguinte, o casamento de homossexuais, a ordenação de mulheres, a
eutanásia, a inseminação artificial, a manipulação de embriões, o feminismo e
outros erros que o Magistério da Igreja condena explicita e veementemente.
Para o filósofo e colunista da
Gazeta do Povo Carlos Ramalhete, os efeitos do relativismo não atingem apenas
as religiões, mas o próprio valor dado à vida humana, já que ele também dependeria
de pontos de vista e, assim, não haveria uma dignidade objetiva do homem. “Se
tudo é forçosamente subjetivo, eu posso afirmar que você não tem direito à
vida. É o caso do aborto, da eutanásia, dos genocídios”, afirma.
Luiz Felipe Pondé, professor de
Ciências da Religião da PUC-SP e colunista do jornal Folha de S.Paulo,
acrescenta que os danos causados pelo relativismo à família e à própria cultura
ocidental justificam a ênfase que Bento XVI deu ao tema, citando o que
considera outro ponto frágil do relativismo. “Só os ocidentais são
relativistas. Nenhuma das outras culturas que assumimos como tão válidas
quanto a nossa leva a sério essa coisa de relativismo”, diz.
Felipe Aquino, doutor em Física pela UNESP disse a seguinte frase:
“Quando se nega a possibilidade para todos de referir-se a uma verdade
objetiva, o diálogo transforma-se impossível e a violência, declarada ou
oculta, torna-se a regra dos relacionamentos humanos.”
“O relativismo contemporâneo mortifica a razão, porque de fato chega a afirmar
que o ser humano nada pode conhecer com certeza, para além do campo científico
positivo.”
Vivemos em uma época em que cada vez mais as pessoas lutam por mais liberdade e ao mesmo tempo se tornam escravas de várias coisas, inclusive de si mesmas. O mundo contemporâneo nos mostra, com todos os seus problemas, que a felicidade não está no ter e na mera materialidade da vida. Que o ser humano realmente precisa de pontos e referências sólidas que norteiam a sua existência e as suas escolhas. Que o amor pela verdade é algo fundamental na vida humana e que o relativismo é uma grande questão a ser refletida.
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